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Simão, pai de Zé

terça-feira, 3 de agosto de 2010 - Arquivado em Sem categoria

foto simão

Amigos, reproduzo aqui um texto escrito por um grande amigo do meu pai, querido jornalista Arley Pereira falecido em 2007. Arley dedicou boa parte de sua vida à musica brasileira trabalhando em televisões, jornais, escrevendo livros com sua fina escrita.

SIMÃO, PAI DE ZÉ

Tudo começou quando o velho – ainda moço – Moschkovich (será que escrevi certo?) desembarcou no Brasil, vindo da Rússia. Simão sempre ria das maneiras como eu grafava o seu sobrenome. Tanto que virou Montalverne, o Simão de Montalverne, respeitado cronista das coisas da noite carioca na Época de Ouro do Rio de Janeiro.

Moschkovich, obviamente  judeu. O menos judeu de todos os judeus a contar de Moisés. Que certamente balançaria as barbas ressentido por aquele descendente que desmentia todas as historias, toda a tradição, tudo o que o mundo se acostumou a ver nos filhos do povo escolhido. Sem jamais renegar as origens, era sobretudo um carioca, em nada lembrando as estepes soviéticas de onde viera seu pai.

Comerciante, jamais foi. Economista (ou econômico) menos ainda. Precavido, prevenido, mão-fechada? Percam as esperanças. Simão de Montalverne era um vivedor e provendo a família julgava cumpridos seus deveres, e o que sobejava – quando sobejava – era para fazer a festa da vida e dos amigos.

Casado com a sua Marlene (que realizou a proeza de se desquitar dele e em seguida recasar… com ele) adotou o codinome de Simãozinho da Lalá. E Dona Lalá foi a companheira perfeita até que um enfarte imbecil o levou, fazendo-o tombar nas ruas de Curitiba que escolhera para repouso do guerreiro. Um guerreiro menino, na flor de seus 56 anos.

Hábil político teve suas aptidões requisitadas muitas vezes pelos que aspiravam ao poder. Ensinou Ademar de Barros a ganhar o governo de São Paulo e de toda a equipe que trabalhou para tanto, foi o único que saiu mais pobre do que entrou. Depois de escolher o Paraná para viver elegeu dois senadores, um governador, um prefeito e… continuou pobre. Pobre de grana, mas riquíssimo de amigos, de virtudes, de alegria, se é que isto conta neste país de mensalões e falcatruas legislativas.

O menos judeu dos judeus. Imagine os patriarcas bíblicos sabendo que um dos seus aceitou ser fiador bancário de… Sílvio Caldas! Melhor rasgar, queimar, jogar dinheiro no lixo. Todo o Brasil sabia da vida boemia e sem responsabilidade que o maior cantor brasileiro de todos os tempos levava. Mas, compadre Simão não sabia dizer não a ninguém, como negar ao pai da afilhada qualquer pedido? E lá ia ele – escondido de Dona Lalá, que já estava escaldada das aprontações do Caboclinho em cima do marido dela – quitar as dívidas bancarias do amigo, pagando como podia, mas pagando. Sem reclamar, sempre com o sorriso aberto garantindo que amigo seu não tinha defeito.

A ser assim, não tenho defeitos. Simão Moschkovich, Simão de Montalverne, o Simãozinho da Lalá, foi um dos mais ternos e perfeitos amigos que tive. Por indicação sua tornei-me o assessor em São Paulo de Álvaro Dias, então governador do Paraná. Deixei o cargo quando ele morreu, – já lá vão dezoito anos neste 2006 – pois não fazia mais sentido ir à Curitiba sem sua presença. Carnavais no Rio de Janeiro passamos vários e Simão tinha uma mania: cantava a mesma música durante os quatro dias. Papo de bar com ele era delícia pura. As histórias saborosas que contava, envolvendo as mais carimbadas figurinhas da noite carioca, as vedetes, os shows, as fofocas, eram o divertimento da mesa. As entranhas da vida política – que ele conhecia como ninguém – os casos das redações dos jornais, a convivência com os monstros-sagrados da imprensa (leia-se Sergio Porto, Nelson Rodrigues, Mário Filho…), cantores (as) e compositores, tudo abastecia a conversa do inicio das noites.

Pena que ele não teve tempo de cumprir a promessa feita à Marlene, de reunir em livro todas essas experiências. De contar para muito mais gente todas suas excelentes histórias, que infelizmente ficaram presas no circulo de amigos, em torno de mesas de bares.

Tudo isso me veio à cabeça no teatro de SESC em Santana, enquanto o cantor no palco cantava Mulher, de Custodio Mesquita e Sadi Cabral, homenageando… Sílvio Caldas. A afinação perfeita, a interpretação precisa, a bela figura no palco, não poderiam ser melhores para a homenagem ao Caboclinho Querido. Mesmo porque quem cantava conhecera Sílvio desde que nasceu. Quem cantava com tanta beleza era Zé Renato. Filho de Simão Mosckovich, Simão de Montalverne, Simãozinho da Lalá.

(Onde estiver Simão estará sorrindo com orgulho. Desde que o cantor e compositor Zé Renato começou a carreira foi ele seu maior incentivador, promotor, divulgador e coruja. E Zé jamais deixou de ser o que o pai – expert no assunto – queria: um dos maiores cantores brasileiros).

2010-08-03  »  zerenato

Respostas x 7

  1. Marta Duarte
    3 agosto 2010 @ 14:05

    Que texto bacana!
    Adorei a forma como o autor retratou seu pai. Deu saudade dessas pessoas bacanas que existiam antigamente (tão raras hoje em dia), quando o que mais valia era a amizade e a palavra dada. Seu pai devia ser uma figura e tanto, deve ter mesmo muito orgulho de você, não importa onde ele esteja.
    No palco, você é exatamente como o autor narrou e emociona sempre. Agradeço sempre a Deus ter os sentidos perfeitos, pra poder me deslumbrar com as maravilhas que Ele põe no mundo, tipo artistas com a sua qualidade e competência.
    Às vezes fico meio constrangida de lhe escrever, mas não tenho culpa de você ter talento e eu gostar da sua arte … rsrs
    Que você cante e encante meus momentos por muitos anos!

  2. Theo
    3 agosto 2010 @ 20:13

    Conheci o Arley Zé.
    Belo texto sobre o seu pai.
    Me permita um toque e uma pergunta :
    É incomodo ficar selecionando
    o texto para poder enxergar a letra.
    Porque você deixa assim?

  3. zerenato
    4 agosto 2010 @ 12:59

    Theo,desculpe-me mas eu não entendo lhufas da parte técnica, vou encaminhar para o responsável, ok? abs

  4. Maria Clara Borges
    4 agosto 2010 @ 17:11

    Ah Zé, lendo este texto lembrei do meu avô materno Mario Hora. Minha mãe sempre conta muitas histórias dele, era crítico teatral, boemio, jornalista… pessoas tão especiais assim dão vontade na gente de conviver mais tempo com elas, não?
    Também gosto de contar histórias, por isso escrevi a série historinha de fâ no seu face… espero que você tenha gostado… beijos, Maria Clara

  5. zerenato
    4 agosto 2010 @ 19:54

    oi Maria Clara, tenho gostado muito de ler suas histórias, bjs

  6. Olivia
    5 agosto 2010 @ 20:48

    Belo texto-homenagem a Simão, o pai de Zé. Também, como o autor do texto, considero Zé Renato um dos melhores cantores brasileiros, voz belíssima. Vida que segue.

  7. lud
    5 agosto 2010 @ 23:17

    Zé, pena mesmo ter ele ido embora tão cedo. O livro seria uma relíquia! Sugiro que você tente registrar as histórias que você lembrar e, na medida do possível, buscar informações com quem conviveu com ele.
    Quem sabe você mesmo edita…
    Um beijo
    Lud

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Re: Simão, pai de Zé







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