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Festivais do CRJ

quinta-feira, 15 de julho de 2010 - Arquivado em História + Sem categoria

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A turma de pouco mais de 20 alunos do 3o ano ginasial ficou espantada com a mão estendida. Para surpresa geral, apenas eu, um dos menos notados na sala de aula havia me interessado pelo anúncio do festival de música .

O colégio Rio de Janeiro situava-se numa casa na Rua Nascimento Silva em Ipanema e tinha cerca de trezentos alunos, bem menor do que o Anglo Americano, onde eu e minha irmã havíamos estudado nos cinco anos anteriores. Do ponto final da linha 433 ( Usina-Leblon ),noJardim de Alah até a escola era um pulo. Estávamos vivendo o início dos anos 70 onde menores de idade como nós íamos e vínhamos sozinhos de ônibus pela cidade sem causar qualquer desassossego aos pais.

Nessa primeira edição do festival não houve competição, apenas uma mostra de músicas realizada no pátio do colégio. Cantei um samba de minha autoria cuja letra narra uma desilusão amorosa tendo como pano de fundo os bares do Leblon, coisa que obviamente não tinha me acontecido .

Estava sentado num bar lá do Leblon

Bebendo, me divertindo

Longe de você

Você chegou me desprezou

E me deixou tão triste assim

Cadê aquele amor tão profundo que você tinha por mim?

A boemia ainda estava por vir. Certamente incorporei alguma situação vivida por meu pai quando separou-se de minha mãe, que mesmo depois de ter reatado com ela, desenvolveu digamos assim, um grande apreço pelo circuito etílico-gastronômico do bairro, a saber: Antonio’s, Le Coin, Degrau e Alvaro’s entre outros.

No ano seguinte, já um pouco mais a vontade na escola, conheci uma turma de outra sala que também gostava de música. O amigo e vizinho de carteira Marco Antonio Guarita fez a ponte, levando-me ao ensaio do “Grupo Agora” numa tranqüila rua do Jardim Botânico.  Fui até lá cercado de dúvidas e incertezas que aos poucos foram se desfazendo a medida que os ouvia tocar. O ambiente era confortável e o grupo formado por André Cechinel no piano, Fernando Barroso no contrabaixo elétrico e Luis Antonio Raposo (Luca) na bateria tocava entusiasmado um repertório recheado de muito samba e bossa-nova. Combinava perfeitamente com as canções que eu compunha naquele momento. Fiquei a vontade para mostrar minhas composições e acabei ganhando o posto de cantor/violonista do conjunto. Viramos rapidamente amigos inseparáveis. A partir dali seguiram-se animados ensaios que culminaram com o primeiro lugar do festival realizado no Teatro do Jóckey Clube Brasileiro. A platéia fez coro no refrão de “Deixa a Vida”, letra e musica feitas por mim. O segundo lugar coube ao recém-chegado de Jundiaí, Cláudio Nucci,  com uma bonita canção de sua autoria . O festival ainda rendeu a nossa primeira e divertida aventura internacional, quando um dos jurados, proprietário de uma empresa turística teve a idéia de nos levar para fazer apresentações em Miami e Orlando nos hotéis onde ficavam hospedados grupos de brasileiros nas férias de julho. Com as passagens e hospedagens garantidas, sem ganhar cachê e sem nada a perder, muito pelo contrário, montamos um repertório de MPB dançante e contamos cada minuto até o dia do embarque no Galeão. Reforçados por Cláudio Nucci na guitarra e pelo percussionista mirim Claudinho Infante na flor dos seus oito anos de idade, partimos nas asas da Braniff para animar as noites americanas dos turistas brasileiros. Todas acabando devidamente em muito samba e carnaval. Embalados pelas primeiras cervejas de nossas vidas tocávamos sem parar durante algumas horas com as baquetas ardendo nas mãos de um exausto e ensopado Luca. De quebra passeamos a vontade na Disneylândia. Vidão.

Os festivais do CRJ continuaram acontecendo por alguns anos, fazendo a alegria dos músicos amadores e futuros profissionais como eu, Cláudio, Claudinho Infante, Mu Carvalho, Alberto Rosenblit e João Luiz Woerdenbag Filho, vulgo Lobão.  Luca aposentou a bateria e virou publicitário; André nosso oftalmologista e Fernando que virou médico ainda tocam juntos eventualmente no “Conexão Rio”.

2010-07-15  »  zerenato

Respostas x 2

  1. Marta Duarte
    17 julho 2010 @ 18:56

    Interessante, quando temos um caminho a seguir as coisas se encaixam e a gente é movido por uma força que até nós mesmos desconhecemos. Sempre gostei de festivais e fui a vários aqui em Fortaleza. Os festivais sempre renderam bons frutos, não sei pq foram esquecidos. Bacana demais a foto!

  2. Olivia
    18 julho 2010 @ 11:44

    Texto de primeira, parabéns Zé Renato. Fico com
    Paulinho da Viola, ‘quando penso no futuro, não esqueço do passado…’ Muito legal estes ‘refrescos’ na memória, sua trajetória é ótima. Sempre em frente, pelo bem da MÚSICA.

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Re: Festivais do CRJ







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