CANTARES | Blog do Zé Renato

Content

Blog do cantor Zé Renato

CANTARES

quarta-feira, 28 de julho de 2010 - Arquivado em Sem categoria

1976-grupo_cantares

CANTARES

Uma característica marcante no show biz brasileiro evidenciada nas décadas de 60,70 e 80 contrastando com o que vivemos agora, diz respeito aos locais onde aconteciam a maioria dos espetáculos musicais. Nos anos 70 por exemplo boa parte dos artistas preferia se apresentar em temporadas curtas ou longas, basicamente em teatros. Quem quisesse que bebesse e comesse antes ou depois, durante nem pensar.E  convenhamos, não existe melhor lugar para se fazer ou ouvir determinado tipo de música do que num bom teatro. Palavra de músico e expectador. Pois foi assim desse jeito, misturado a um numeroso público, que eu me encontrava na platéia do Teatro João Caetano em 1974, minutos antes do início de um dos mais belos shows que já assisti em toda  minha vida: “Milagre dos Peixes” com Milton Nascimento, Som Imaginário e orquestra regida pelo maestro Paulo Moura. Começaria ali minha viagem ao mundo encantado da música mineira. Num teatro abarrotado, em meio ao burburinho da platéia observei um pouco distante do meu lugar, numa fila próxima ao palco, uma figura que falava sorrindo e gesticulava bastante. Estatura mediana, ligeiramente gordinho, cabelos longos e esbanjando imensa felicidade de estar ali. Essa foi a primeira imagem que tive do amigo e parceiro Juca Filho. Naquele momento não nos conhecíamos mas lembrei imediatamente da cena quando Marco Aurélio Dias Campos, nosso amigo comum, apresentou-nos tempos depois. Marco era meu colega de cursinho, e curiosamente o único inscrito para o vestibular da Escola Nacional de Musica enquanto eu enganava a mim mesmo ( e também a meus pais) estudando para as provas  do vestibular de comunicação. Poeta, violonista e compositor, Juca – carioca de família mineira – leitor entusiasmado de Guimarães Rosa, ouvinte atento de música sem distinção de gênero , fez-me enveredar por mares até então ainda não navegados. Meus dias de compositor estudantil foram aos poucos se distanciando dando lugar as novas melodias que rapidamente compunha para as letras do novo parceiro. A temática essencialmente mineira fez brotar muitas composições influenciadas por essa linguagem. Canções em compasso 6/8, toadas, lundus, assim o repertório foi se formando e entusiasmando também um time de músicos que fazia parte do nosso convívio quase diário. Dessa turma nasceu a primeira formação do grupo Cantares: Marcelo Bernades(flauta); Marcos Farina(viola de 10 cordas); Damilton Viana(percussão); Ignes Perdigão(voz e percussão);Antonio Santana(baixo); Marco Aurélio(bandolin); Juca(violão e voz) e esse que vos fala (violão e voz). Depois de alguns ensaios realizados, a maioria deles no apartamento dos avós de Juca, no Largo dos Leões, marcamos nosso primeiro show no Festival de Musica de São João Del Rey .E assim, debaixo de um frio polar, tocamos pela primeira vez  em público. De volta ao Rio seguimos a trilha dos artistas iniciantes percorrendo o circuito alternativo espalhado pela cidade. Músicos independentes tinham vez nas salas do Parque Lage, Corpo e Som (MAM) e Funarte, no teatro do Centro Cultural Candido Mendes e muitos outros espaços. Aos poucos um público ia se formando.

Saíram Marcos Farina, Ignês e Marcelo cujas vagas foram ocupadas por Marcos  Ariel(flauta e piano), Zé Carlos (percussão) e Cid De Freitas (bateria). A viola de 10 passou a ser tocada por Marco Aurélio que se alternava no bandolin e ainda experimentaríamos por um curto período duas cantoras(Célia Malheiros e Elza Maria). O único registro em disco – um compacto duplo – acabou acontecendo graças ao Projeto Vitrine, onde além da gravação tivemos o privilégio de dividir o show com um de nossos heróis brasileiros, o compositor e guitarrista Toninho Horta.

Um projeto paralelo, surgiu estimulado pelo movimento de renovação do choro que  acontecia naturalmente no Rio de Janeiro. Formamos um regional batizado com o nome de “Éramos Felizes” a partir de uma idéia do violonista Téo Oliveira.  Um regional integrado basicamente por alguns músicos do Cantares e com formação atípica para os padrões – sem o violão de sete cordas mas com baixo acústico por exemplo. Nessa época uma leva de jovens músicos espalhava-se em rodas diversas pela cidade, não só para tocar como também para ouvir os mestres do gênero . Um deles, Joel do Bandolin ,semanalmente atraía numerosos aprendizes  ao “Sovaco de Cobra” na Penha. Entre os novos chorões surgiu o fenomenal Raphael Rabelo que junto com Luciana Rabelo, Téo Oliveira e Celsinho Silva integraram “Os Carioquinhas” na sua primeira formação .

No currículo do Éramos Felizes consta a  participação num show com a gloriosa Clementina de Jesus em São Paulo. Contratados para dois fizemos apenas um já que inacreditavelmente não conseguimos achar o endereço do primeiro, deixando a rainha Quelé a ver navios.

Assim  a vida se movimentava naqueles dias, entre idas ao Baixo Leblon e retornando a base no apartamento da Rua Antonio Maria Teixeira*, para tocar, compor e viver intensamente a alegria de uma juventude que não tinha hora pra terminar.

Quanto a juventude, não sei…mas a alegria continua.

*rua situada no bairro do Leblon(RJ) onde eu passei a morar em meados dos anos 70 depois que meus pais se mudaram para Curitiba

2010-07-28  »  zerenato

Respostas x 9

  1. Juca Filho
    28 julho 2010 @ 14:48

    Marvilha, Zé… Adorando seus textos. Olha, vc só esquceu do Cidinho, que ficou com a gente um bom tempinho, o batera Cid de Freitas, aliás colega no Facebook, também. Bons momentos aqueles,

  2. Juca Filho
    28 julho 2010 @ 14:50

    Ops… e um erro histórico ai… Os violões d’Os Carioquinhas eram o Raphael e o Téo. Pode consertar aí que, se ele ler, vai bronquear ! Rs rs rs

  3. Marta Duarte
    28 julho 2010 @ 18:24

    Sem dúvida alguma, não existe melhor lugar pra se ouvir uma apresentação musical do que um bom teatro. Aliás foi num teatro que tive o prazer de ouvi-lo pela 1ª vez ao vivo e jamais vou esquecer a magia daquele show. É emocionante demais ver e ouvir “in natura” um artista que admiramos e que normalmente só temos acesso pela frieza dos aparelhos eletrônicos, você experimentou isso e sabe do que falo. Só conheci o Cantares depois de extinto, mas pelo menos deixou bons frutos, como você.
    Não abandone o blog, adoro lê-lo, bem como ouvi-lo … um beijo!

  4. Teresa Carneiro
    29 julho 2010 @ 8:17

    BELAS RECORDAÇÕES. E QUE DELÍCIA DE TEXTO, ZÉ!

  5. zerenato
    29 julho 2010 @ 10:48

    obrigado Teresa, tem sido um bom exercício escrever as memórias, bjs

  6. zerenato
    29 julho 2010 @ 10:50

    obrigado Marta, na medida do possível vou atualizando, bjs

  7. zerenato
    29 julho 2010 @ 10:50

    certíssimo Juca, já corrigi, abs

  8. Theo
    29 julho 2010 @ 14:40

    Legal Zé!!!!!!!!!!!
    Esta é a estória verdadeira de tudo que aconteceu.
    Que tempo bom de nossas vidas…
    Me sinto com saudade e feliz de ter dividido tudo isso
    com tanta gente querida!
    Só para constar,aquele show do Milton foi realmente
    um abuso de bonito.

  9. Olivia
    30 julho 2010 @ 9:23

    Muito Legal, Zé Renato. Toninho Horta, Rafael Rabello, Clementina de Jesus e tantas outras pérolas da nossa música ( cadê a memória brasileira? que país é esse meu irmão!!!). Importantíssimos esses registros em seu blog, parabéns.

Compartilhe seus pensamentos

Re: CANTARES







Tags you can use (optional):
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>