Blog do Zé Renato

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Blog do cantor Zé Renato

Primeira parceria com Bituca

sexta-feira, 24 de agosto de 2012 - Arquivado em Sem categoria

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Em meados dos anos 70 meus pais moravam em Curitiba e por conta disso passei algumas férias naquela bela e gelada cidade, friozinho pra ninguém botar defeito. Numa dessas férias, um festival de música popular agitou a cidade que durante uma semana pôde presenciar shows de Chico Buarque, MPB-4, Jorge Benjor e entre os mais aguardados por mim, Milton Nascimento e o Som Imaginário. Na véspera acabei topando com Milton na fila para ver o show que lhe antecederia e sem ter muito o que dizer perguntei se poderia assistir a passagem de som, no que ele prontamente recusou, “não dá não, só na hora do show mesmo”, resposta essa que até hoje me diverte lembrando a seriedade do Bituca e minha cara de desapontamento e resignação. Corta. Uns seis anos depois, no saguão do Hotel Maksoud em SP, num papo descontraído meu agora colega de profissão me convida para aparecer em sua casa quando fosse a Belo Horizonte. Convite feito, convite aceito. Apareci mesmo e passamos uma tarde inesquecível conversando (pouco) e tocando. A certa altura sugeriu ”mostra umas músicas aí”, e entre as que mostrei estava uma melodia que tinha enviado recentemente pro Chico Buarque. Ele acabou de ouvir e sentenciou ”mas sou eu que vou letrar essa música”,  me causando espanto e alegria, imagine agora, prestes a virar parceiro de meu maior ídolo. Assim, um pouco sem jeito desconvidei Chico e dias depois retornei a BH para concluir  Anima, nossa primeira parceria que tanto me orgulha. Bituca continua sendo meu principal guia e um amigo que guardarei para sempre do lado esquerdo do peito.

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Aventuras com Pat Metheny e Al Di Meola

quinta-feira, 3 de maio de 2012 - Arquivado em Sem categoria

Zé Renato e Pat

Durante uma temporada no Brasil em meados dos anos 80 onde circulou a vontade pelas noites cariocas, incluindo duas semanas de shows na casa noturna Jazzmania, o guitarrista americano Pat Metheny fez questão de deixar claro seu encantamento pela música brasileira. Numa entrevista em que  desfiou rasgados elogios a vários músicos da terra incluiu o Boca Livre no rol de seus “heróis brasileiros”. E talvez tenha sido por essa razão que eu e Cláudio Nucci recebemos sem muito espanto o convite para uma “audition” ou melhor dizendo, um ensaio/teste onde o músico americano tentava selecionar cantores e percussionistas para injetar o tempero brasileiro que tanto lhe fascinava. Abdicar do status de artista principal em favor de um emprego como vocalista numa banda de jazz foi uma decisão que me tirou o sono durante alguns dias mas era um bom desafio, diferente de qualquer outra experiência vivida por mim até aquele momento. Topamos a parada e começamos a ouvir discos e aprender alguns temas sugeridos para o ensaio que aconteceria em Boston em poucas semanas. Assim que chegaram os dados das passagens aéreas, hotel e detalhes complementares da produção, um amigo do Claudio, proprietário de uma agência de viagens, comentou a possibilidade de transformar as passagens enviadas originalmente em classe executiva em duas econômicas, sugestão que brasileiramente foi aceita por nós. Partimos então para a aventura americana com o segredo da multiplicação dos tickets aéreos guardado até hoje. A experiência acabou não dando certo, Pat optou por levar o percussionista Marçalzinho e outros dois músicos americanos que quando cantavam juntos resultava curiosamente num timbre semelhante a voz de Milton Nascimento, maior ídolo do guitarrista. Antes de encerrar o prazo de validade da passagem que sobrou viajei de férias para Nova York com meu companheiro de Banda Zil ,Ricardo Silveira e nos hospedamos num hotel perto da 48th, uma espécie de Disneylandia musical com várias lojas de instrumentos espalhadas ao longo da rua. Como a idéia era basicamente se divertir, ver shows e rever amigos, Ricardo chegou e foi ligando para alguns conhecidos, entre eles o guitarrista Al Di Meola.

Zé e Al di Meola

Dias depois, acordamos com um telefonema de Al para Ricardo pedindo um help. O percussionista e cantor Airto Moreira que por algum motivo desistira de participar do disco que começaria ser gravado em poucos dias deixara-o numa situação bastante difícil tendo que arranjar um músico com essas características, urgentemente-  a resposta foi imediata: “percussionista não sei mas cantor está na minha frente”. Não demorou muito para que um carro fosse enviado ao hotel e nos levasse até New Jersey, rumo a casa de Al di Meola que me aguardava para mais uma “audition”, a segunda da minha vida. Dessa vez apenas eu e Al no violão, que gravou, ouviu e ligou no dia seguinte aprovando. Assim a viagem de férias acabou virando uma “gig” e eu fiquei por mais um mês em Manhattan tentando melhorar meu macarrônico inglês (socorrido algumas vezes pelo amigo Junno Homrich), e gravando na companhia do baixista Anthony Jackson, do baterista Tom Brechtlein, do percussionista Mino Cinelu , do tecladista Key Akagi  com a participação da cantora brasileira Clara Sandroni. O trabalho de divulgação do álbum “Tiramisu” ainda rendeu um ano de turnês pela Europa e EUA .

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Simão, pai de Zé

terça-feira, 3 de agosto de 2010 - Arquivado em Sem categoria

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Amigos, reproduzo aqui um texto escrito por um grande amigo do meu pai, querido jornalista Arley Pereira falecido em 2007. Arley dedicou boa parte de sua vida à musica brasileira trabalhando em televisões, jornais, escrevendo livros com sua fina escrita.

SIMÃO, PAI DE ZÉ

Tudo começou quando o velho – ainda moço – Moschkovich (será que escrevi certo?) desembarcou no Brasil, vindo da Rússia. Simão sempre ria das maneiras como eu grafava o seu sobrenome. Tanto que virou Montalverne, o Simão de Montalverne, respeitado cronista das coisas da noite carioca na Época de Ouro do Rio de Janeiro.

Moschkovich, obviamente  judeu. O menos judeu de todos os judeus a contar de Moisés. Que certamente balançaria as barbas ressentido por aquele descendente que desmentia todas as historias, toda a tradição, tudo o que o mundo se acostumou a ver nos filhos do povo escolhido. Sem jamais renegar as origens, era sobretudo um carioca, em nada lembrando as estepes soviéticas de onde viera seu pai.

Comerciante, jamais foi. Economista (ou econômico) menos ainda. Precavido, prevenido, mão-fechada? Percam as esperanças. Simão de Montalverne era um vivedor e provendo a família julgava cumpridos seus deveres, e o que sobejava – quando sobejava – era para fazer a festa da vida e dos amigos.

Casado com a sua Marlene (que realizou a proeza de se desquitar dele e em seguida recasar… com ele) adotou o codinome de Simãozinho da Lalá. E Dona Lalá foi a companheira perfeita até que um enfarte imbecil o levou, fazendo-o tombar nas ruas de Curitiba que escolhera para repouso do guerreiro. Um guerreiro menino, na flor de seus 56 anos.

Hábil político teve suas aptidões requisitadas muitas vezes pelos que aspiravam ao poder. Ensinou Ademar de Barros a ganhar o governo de São Paulo e de toda a equipe que trabalhou para tanto, foi o único que saiu mais pobre do que entrou. Depois de escolher o Paraná para viver elegeu dois senadores, um governador, um prefeito e… continuou pobre. Pobre de grana, mas riquíssimo de amigos, de virtudes, de alegria, se é que isto conta neste país de mensalões e falcatruas legislativas.

O menos judeu dos judeus. Imagine os patriarcas bíblicos sabendo que um dos seus aceitou ser fiador bancário de… Sílvio Caldas! Melhor rasgar, queimar, jogar dinheiro no lixo. Todo o Brasil sabia da vida boemia e sem responsabilidade que o maior cantor brasileiro de todos os tempos levava. Mas, compadre Simão não sabia dizer não a ninguém, como negar ao pai da afilhada qualquer pedido? E lá ia ele – escondido de Dona Lalá, que já estava escaldada das aprontações do Caboclinho em cima do marido dela – quitar as dívidas bancarias do amigo, pagando como podia, mas pagando. Sem reclamar, sempre com o sorriso aberto garantindo que amigo seu não tinha defeito.

A ser assim, não tenho defeitos. Simão Moschkovich, Simão de Montalverne, o Simãozinho da Lalá, foi um dos mais ternos e perfeitos amigos que tive. Por indicação sua tornei-me o assessor em São Paulo de Álvaro Dias, então governador do Paraná. Deixei o cargo quando ele morreu, – já lá vão dezoito anos neste 2006 – pois não fazia mais sentido ir à Curitiba sem sua presença. Carnavais no Rio de Janeiro passamos vários e Simão tinha uma mania: cantava a mesma música durante os quatro dias. Papo de bar com ele era delícia pura. As histórias saborosas que contava, envolvendo as mais carimbadas figurinhas da noite carioca, as vedetes, os shows, as fofocas, eram o divertimento da mesa. As entranhas da vida política – que ele conhecia como ninguém – os casos das redações dos jornais, a convivência com os monstros-sagrados da imprensa (leia-se Sergio Porto, Nelson Rodrigues, Mário Filho…), cantores (as) e compositores, tudo abastecia a conversa do inicio das noites.

Pena que ele não teve tempo de cumprir a promessa feita à Marlene, de reunir em livro todas essas experiências. De contar para muito mais gente todas suas excelentes histórias, que infelizmente ficaram presas no circulo de amigos, em torno de mesas de bares.

Tudo isso me veio à cabeça no teatro de SESC em Santana, enquanto o cantor no palco cantava Mulher, de Custodio Mesquita e Sadi Cabral, homenageando… Sílvio Caldas. A afinação perfeita, a interpretação precisa, a bela figura no palco, não poderiam ser melhores para a homenagem ao Caboclinho Querido. Mesmo porque quem cantava conhecera Sílvio desde que nasceu. Quem cantava com tanta beleza era Zé Renato. Filho de Simão Mosckovich, Simão de Montalverne, Simãozinho da Lalá.

(Onde estiver Simão estará sorrindo com orgulho. Desde que o cantor e compositor Zé Renato começou a carreira foi ele seu maior incentivador, promotor, divulgador e coruja. E Zé jamais deixou de ser o que o pai – expert no assunto – queria: um dos maiores cantores brasileiros).

7 comentários  ::  Divulgue ou discuta  ::  2010-08-03  ::  zerenato

CANTARES

quarta-feira, 28 de julho de 2010 - Arquivado em Sem categoria

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CANTARES

Uma característica marcante no show biz brasileiro evidenciada nas décadas de 60,70 e 80 contrastando com o que vivemos agora, diz respeito aos locais onde aconteciam a maioria dos espetáculos musicais. Nos anos 70 por exemplo boa parte dos artistas preferia se apresentar em temporadas curtas ou longas, basicamente em teatros. Quem quisesse que bebesse e comesse antes ou depois, durante nem pensar.E  convenhamos, não existe melhor lugar para se fazer ou ouvir determinado tipo de música do que num bom teatro. Palavra de músico e expectador. Pois foi assim desse jeito, misturado a um numeroso público, que eu me encontrava na platéia do Teatro João Caetano em 1974, minutos antes do início de um dos mais belos shows que já assisti em toda  minha vida: “Milagre dos Peixes” com Milton Nascimento, Som Imaginário e orquestra regida pelo maestro Paulo Moura. Começaria ali minha viagem ao mundo encantado da música mineira. Num teatro abarrotado, em meio ao burburinho da platéia observei um pouco distante do meu lugar, numa fila próxima ao palco, uma figura que falava sorrindo e gesticulava bastante. Estatura mediana, ligeiramente gordinho, cabelos longos e esbanjando imensa felicidade de estar ali. Essa foi a primeira imagem que tive do amigo e parceiro Juca Filho. Naquele momento não nos conhecíamos mas lembrei imediatamente da cena quando Marco Aurélio Dias Campos, nosso amigo comum, apresentou-nos tempos depois. Marco era meu colega de cursinho, e curiosamente o único inscrito para o vestibular da Escola Nacional de Musica enquanto eu enganava a mim mesmo ( e também a meus pais) estudando para as provas  do vestibular de comunicação. Poeta, violonista e compositor, Juca – carioca de família mineira – leitor entusiasmado de Guimarães Rosa, ouvinte atento de música sem distinção de gênero , fez-me enveredar por mares até então ainda não navegados. Meus dias de compositor estudantil foram aos poucos se distanciando dando lugar as novas melodias que rapidamente compunha para as letras do novo parceiro. A temática essencialmente mineira fez brotar muitas composições influenciadas por essa linguagem. Canções em compasso 6/8, toadas, lundus, assim o repertório foi se formando e entusiasmando também um time de músicos que fazia parte do nosso convívio quase diário. Dessa turma nasceu a primeira formação do grupo Cantares: Marcelo Bernades(flauta); Marcos Farina(viola de 10 cordas); Damilton Viana(percussão); Ignes Perdigão(voz e percussão);Antonio Santana(baixo); Marco Aurélio(bandolin); Juca(violão e voz) e esse que vos fala (violão e voz). Depois de alguns ensaios realizados, a maioria deles no apartamento dos avós de Juca, no Largo dos Leões, marcamos nosso primeiro show no Festival de Musica de São João Del Rey .E assim, debaixo de um frio polar, tocamos pela primeira vez  em público. De volta ao Rio seguimos a trilha dos artistas iniciantes percorrendo o circuito alternativo espalhado pela cidade. Músicos independentes tinham vez nas salas do Parque Lage, Corpo e Som (MAM) e Funarte, no teatro do Centro Cultural Candido Mendes e muitos outros espaços. Aos poucos um público ia se formando.

Saíram Marcos Farina, Ignês e Marcelo cujas vagas foram ocupadas por Marcos  Ariel(flauta e piano), Zé Carlos (percussão) e Cid De Freitas (bateria). A viola de 10 passou a ser tocada por Marco Aurélio que se alternava no bandolin e ainda experimentaríamos por um curto período duas cantoras(Célia Malheiros e Elza Maria). O único registro em disco – um compacto duplo – acabou acontecendo graças ao Projeto Vitrine, onde além da gravação tivemos o privilégio de dividir o show com um de nossos heróis brasileiros, o compositor e guitarrista Toninho Horta.

Um projeto paralelo, surgiu estimulado pelo movimento de renovação do choro que  acontecia naturalmente no Rio de Janeiro. Formamos um regional batizado com o nome de “Éramos Felizes” a partir de uma idéia do violonista Téo Oliveira.  Um regional integrado basicamente por alguns músicos do Cantares e com formação atípica para os padrões – sem o violão de sete cordas mas com baixo acústico por exemplo. Nessa época uma leva de jovens músicos espalhava-se em rodas diversas pela cidade, não só para tocar como também para ouvir os mestres do gênero . Um deles, Joel do Bandolin ,semanalmente atraía numerosos aprendizes  ao “Sovaco de Cobra” na Penha. Entre os novos chorões surgiu o fenomenal Raphael Rabelo que junto com Luciana Rabelo, Téo Oliveira e Celsinho Silva integraram “Os Carioquinhas” na sua primeira formação .

No currículo do Éramos Felizes consta a  participação num show com a gloriosa Clementina de Jesus em São Paulo. Contratados para dois fizemos apenas um já que inacreditavelmente não conseguimos achar o endereço do primeiro, deixando a rainha Quelé a ver navios.

Assim  a vida se movimentava naqueles dias, entre idas ao Baixo Leblon e retornando a base no apartamento da Rua Antonio Maria Teixeira*, para tocar, compor e viver intensamente a alegria de uma juventude que não tinha hora pra terminar.

Quanto a juventude, não sei…mas a alegria continua.

*rua situada no bairro do Leblon(RJ) onde eu passei a morar em meados dos anos 70 depois que meus pais se mudaram para Curitiba

9 comentários  ::  Divulgue ou discuta  ::  2010-07-28  ::  zerenato

Festivais do CRJ

quinta-feira, 15 de julho de 2010 - Arquivado em História + Sem categoria

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A turma de pouco mais de 20 alunos do 3o ano ginasial ficou espantada com a mão estendida. Para surpresa geral, apenas eu, um dos menos notados na sala de aula havia me interessado pelo anúncio do festival de música .

O colégio Rio de Janeiro situava-se numa casa na Rua Nascimento Silva em Ipanema e tinha cerca de trezentos alunos, bem menor do que o Anglo Americano, onde eu e minha irmã havíamos estudado nos cinco anos anteriores. Do ponto final da linha 433 ( Usina-Leblon ),noJardim de Alah até a escola era um pulo. Estávamos vivendo o início dos anos 70 onde menores de idade como nós íamos e vínhamos sozinhos de ônibus pela cidade sem causar qualquer desassossego aos pais.

Nessa primeira edição do festival não houve competição, apenas uma mostra de músicas realizada no pátio do colégio. Cantei um samba de minha autoria cuja letra narra uma desilusão amorosa tendo como pano de fundo os bares do Leblon, coisa que obviamente não tinha me acontecido .

Estava sentado num bar lá do Leblon

Bebendo, me divertindo

Longe de você

Você chegou me desprezou

E me deixou tão triste assim

Cadê aquele amor tão profundo que você tinha por mim?

A boemia ainda estava por vir. Certamente incorporei alguma situação vivida por meu pai quando separou-se de minha mãe, que mesmo depois de ter reatado com ela, desenvolveu digamos assim, um grande apreço pelo circuito etílico-gastronômico do bairro, a saber: Antonio’s, Le Coin, Degrau e Alvaro’s entre outros.

No ano seguinte, já um pouco mais a vontade na escola, conheci uma turma de outra sala que também gostava de música. O amigo e vizinho de carteira Marco Antonio Guarita fez a ponte, levando-me ao ensaio do “Grupo Agora” numa tranqüila rua do Jardim Botânico.  Fui até lá cercado de dúvidas e incertezas que aos poucos foram se desfazendo a medida que os ouvia tocar. O ambiente era confortável e o grupo formado por André Cechinel no piano, Fernando Barroso no contrabaixo elétrico e Luis Antonio Raposo (Luca) na bateria tocava entusiasmado um repertório recheado de muito samba e bossa-nova. Combinava perfeitamente com as canções que eu compunha naquele momento. Fiquei a vontade para mostrar minhas composições e acabei ganhando o posto de cantor/violonista do conjunto. Viramos rapidamente amigos inseparáveis. A partir dali seguiram-se animados ensaios que culminaram com o primeiro lugar do festival realizado no Teatro do Jóckey Clube Brasileiro. A platéia fez coro no refrão de “Deixa a Vida”, letra e musica feitas por mim. O segundo lugar coube ao recém-chegado de Jundiaí, Cláudio Nucci,  com uma bonita canção de sua autoria . O festival ainda rendeu a nossa primeira e divertida aventura internacional, quando um dos jurados, proprietário de uma empresa turística teve a idéia de nos levar para fazer apresentações em Miami e Orlando nos hotéis onde ficavam hospedados grupos de brasileiros nas férias de julho. Com as passagens e hospedagens garantidas, sem ganhar cachê e sem nada a perder, muito pelo contrário, montamos um repertório de MPB dançante e contamos cada minuto até o dia do embarque no Galeão. Reforçados por Cláudio Nucci na guitarra e pelo percussionista mirim Claudinho Infante na flor dos seus oito anos de idade, partimos nas asas da Braniff para animar as noites americanas dos turistas brasileiros. Todas acabando devidamente em muito samba e carnaval. Embalados pelas primeiras cervejas de nossas vidas tocávamos sem parar durante algumas horas com as baquetas ardendo nas mãos de um exausto e ensopado Luca. De quebra passeamos a vontade na Disneylândia. Vidão.

Os festivais do CRJ continuaram acontecendo por alguns anos, fazendo a alegria dos músicos amadores e futuros profissionais como eu, Cláudio, Claudinho Infante, Mu Carvalho, Alberto Rosenblit e João Luiz Woerdenbag Filho, vulgo Lobão.  Luca aposentou a bateria e virou publicitário; André nosso oftalmologista e Fernando que virou médico ainda tocam juntos eventualmente no “Conexão Rio”.

2 comentários  ::  Divulgue ou discuta  ::  2010-07-15  ::  zerenato

A Perda Irreparável

terça-feira, 6 de julho de 2010 - Arquivado em /Teatro + História

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Amigos, aqui vai uma curiosa história da minha curta e divertida passagem pelo teatro brasleiro

A Perda Irreparável

Morávamos em frente ao Teatro Copacabana Palace, no Edifício Itamar. Talvez não tenha assistido a nenhuma peça mas eu Memeca freqüentávamos a piscina do hotel graças as relações amigáveis do nosso pai com seu patrão Oscar Ornstein, responsável pelas produções teatrais e shows do Golden Room. Nessa época, início dos anos 60, os móveis do quarto em que se hospedara Orson Welles  já tinham boiado na piscina lançados pelo próprio e o Golden Room realizado shows marcantes como o de Marlene Dietrich. Minhas entradas e saídas do hotel resumiam-se, além de eventuais braçadas pela piscina, cortar o cabelo na barbearia e tímidas aparições no baile do carnaval infantil.

Um belo dia meu pai chegou em casa com a novidade : estavam escolhendo o elenco para a montagem de “A Perda Irreparável” , peça escrita por Wanda Fabian com direção de Ziembinsky e precisando urgente de uma criança para um pequeno papel. Sinceramente até hoje não sei o que lhe ocorreu para que me sugerisse para a empreitada . Logo eu, tímido ao extremo, campeão da desanimação dos bailes de carnaval, escalado para o elenco de uma peça de adultos. E aí? Sai dessa José ! Tremi na base. Meus futuros companheiros de palco eram Madame Morineau, Iracema de Alencar, Miguel Carrano, José Augusto Branco, Souza Lima, Suzana de Moraes, Marina Branco, cenários e figurinos de Bellá Paes Leme e a assistência de direção de Carlos Kroeber.que também se revezava com Ziembinsky no personagem ‘Frei Paulo”. Um nome artístico foi escolhido e assim da noite pro dia virei Renatinho Montalverne, pescado do pseudônimo jornalístico do meu pai Simão, Moschkovich de nascença,  mas também Simão“O Cirineu para Aracy de Almeida, Montalverne para os colegas de trabalho e Simão “da Lalá” , referência à Marlene, minha mãe,  como ele mais gostava de ser chamado.

A comédia, ambientada numa vila carioca, contava a história de uma jovem que prestes a se casar perde a virgindade causando um tremendo alvoroço, virando o assunto predileto da vizinhança. Meu personagem tinha pouco mais do que três frases, o suficiente para que eu experimentasse pela primeira vez a sensação de ser aplaudido por uma  platéia como de praxe nos agradecimentos finais. Era disparado o meu momento preferido. No camarim, enquanto aguardava a hora de entrar em cena, consumia invariavelmente fartas porções de cassata napolitana sem dó nem piedade e certamente devo ter entrado no palco algumas vezes com a boca lambuzada de sorvete. Porém o que era doce se acabou. O juizado de menores proibiu  que eu ficasse até o final da peça, limitando minha participação apenas aos pequenos trechos relativos ao texto.  Fiquei bastante contrariado. Justamente me tirar a melhor parte : os agradecimentos? Obedeci, mas ficou tudo bem menos divertido.  Até que uma forte gripe me afastou do teatro e meus pais resolveram que aquele ritmo de vida não combinava mesmo com o cotidiano de um menor de idade. A vida voltou ao normal. Deu pra sentir também que o meu negócio poderia ter até alguma coisa a ver com as artes. Menos as cênicas.

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Boca Livre

sábado, 19 de junho de 2010 - Arquivado em /Boca Livre + História

Caros amigos, cá estou eu estreando meu blog onde periodicamente deixarei alguns escritos. Pra começar vai um texto que faz parte de algumas histórias que pretendo reunir e publicar em algum momento.

Boca Livre

A imagem da platéia no teatro Record na tela da tv em preto e branco vibrando diante da apresentação vitoriosa de “Ponteio” interpretada por Edu Lobo, Marília Medalha e o jovem quarteto vocal Momento Quatro formado por Mauricio Maestro, David Tygel, Zé Rodrix e Ricardo Vilas é símbolo do nascimento de uma geração que mudou os rumos da musica popular brasileira e que se movimenta até hoje. A noite do III Festival da Musica Brasileira aconteceu em 21 de outubro de 1967. Corta. Estamos agora no final dos anos 70 onde Mauricio assiste à tv, já colorida, e presta atenção especial a um novato grupo cantando suas próprias canções. O cantor, esse que vos fala, fazia parte do Cantares- diz o cantor: “ foi onde comecei de fato a encarar profissionalmente a música, deixando qualquer outra alternativa de trabalho arquivada pra sempre. Nessa época já tinha assistido a alguns shows da dupla Joyce e Mauricio Maestro no projeto Seis e Meia do Teatro João Caetano e na sala Corpo e Som do MAM antes do incêndio destruir parte do museu. Apesar de ter tirado a carteira da OMB, o que naquele momento de certa maneira oficializava a minha atividade, não me considerava ainda parte daquele time, daquela turma que tanto admirava, em cujos shows eu e meus amigos tornamo-nos figurinhas fáceis. Difícil acreditar que éramos colegas de profissão de Toninho Horta, Milton, Mauricio, Joyce, Paulinho Da Viola, Chico, Hermeto…se eu for falar  dessa turma hoje eu não vou terminar” .

David Tygel, continuou sendo músico mas expandiu suas atividades, criou um projeto musical chamado “Quem Sabe Sobe”, que acontecia nos finais de semana no Morro da Urca onde a idéia básica era programar nomes conhecidos e convidar novos artistas para os shows de abertura . Deu o maior pé. Nessas noites musicais na Praia Vermelha filas gigantescas se formavam a espera do bondinho que os levariam até o cenário de real beleza. Com a cidade a seus pés o público se deliciava vendo shows antológicos protagonizados por  uma seleção de notáveis da MPB. E coube justamente ao “Cantares”  abrir para um de nossos grandes ídolos, Hermeto Paschoal. Depois do show David me fez um convite: contou que ele e Mauricio desejavam formar um novo quarteto vocal e propuseram-me uma reunião. Parti um tanto nervoso para o primeiro encontro marcado no apartamento onde David morava numa rua em Botafogo. Depois do gelo inicial quebrado cantamos algumas musicas, papeamos e saímos de lá com a certeza que estava nascendo ali a idéia básica de um novo  grupo. Assim, pouco mais de vinte anos depois Mauricio e David estavam de volta ao vocal.  Lourenço Baeta foi convidado para completar o quarteto mas preferiu não aceitar para se dedicar a seu próprio disco que estava prestes a ser gravado. Me pediram sugestões de um outro cantor; lembrei imediatamente do companheiro de Colégio Rio de Janeiro e parceiro, o jundiaiense Cláudio Nucci que nessa época integrava o grupo “Semente”. Eu e Cláudio experimentávamos a sensação de cantar pela primeira vez num quarteto.

O nome surgiu quando Mauricio animado com os improvisos vocais que exercitávamos durante os ensaios teve a feliz idéia. Boca Livre começou bem, trabalhando de cara com Hermínio Bello de Carvalho que produzia o primeiro disco do cantor e compositor paraense Vital Lima, no estúdio Hara situado no centro do Rio. Foi quando ouvimos pela primeira vez o som do grupo num estúdio. Nessa mesma época, surgiu o convite que selou a nossa boa sorte. Edu Lobo preparava-se para gravar o disco Camaleão e convocou-nos para os vocais. Participamos da temporada de lançamento no Teatro Casa Grande dirigidos por Fernando Faro e em seguida viajamos pelo projeto Pixinguinha fazendo dupla com Edu através de algumas cidades do norte/nordeste brasileiro. Quando ficávamos sozinhos no palco cantávamos as únicas quatro musicas  ensaiadas até então- Toada, Quem Tem a Viola, Ponta de Areia e Diana . A resposta positiva do público não deixou dúvidas de que estava na hora de partir para o nosso próprio disco. Depois de muitos ensaios na nova casa do David em Santa Teresa completamos o repertório com canções de Geraldo Azevedo, Nelson Ângelo, entre outros.  Animadíssimos com o resultado dos arranjos  resolvemos procurar  alguns produtores  que conhecíamos ligados as principais gravadores do mercado. Mas após frustrantes reuniões ( numa delas um já falecido produtor musical sugeriu que virássemos os Bee Gees  brasileiros), mudamos a estratégia e decidimos seguir as pegadas do compositor e pianista Antonio Adolfo. Alugamos algumas horas no estúdio da Sonoviso situado na Praça Onze e ali gravamos entre julho e agosto de 1979 sob a batuta do técnico Toninho Barbosa e com a generosidade dos amigos/músicos o nosso LP de estréia, totalmente independente. Disco pronto, fomos a luta com o nosso “quinto Boca” João Mário Linhares e conseguimos um feito histórico. Mesmo sem os recursos de distribuição tais como os que temos hoje em dia  e também sem nenhuma espécie de patrocínio, emplacamos algumas musicas nas principais rádios do Brasil resultando numa venda de cem mil cópias entre discos e fitas cassetes e temporadas de shows lotados .

Continuo orgulhosamente a fazer parte dessa  turma. O Boca continua até hoje, feliz e Livre.

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72 comentários  ::  Divulgue ou discuta  ::  2010-06-19  ::  zerenato