É tempo de amar

Conheça o novo disco

Novas emoções:
uma jovem guarda como você nunca ouviu

Por Nelson Motta

Como se sabe, embora não se saiba bem porque, a música brasileira moderna é pródiga em grandes intérpretes femininas e em grandes compositores que cantam, mas parca em grandes intérpretes masculinos. Ainda são poucas, mas muito poderosas, as mulheres vitoriosas como compositoras, como Rita Lee, Marisa Monte e Ana Carolina. Mas são ainda mais raros os nossos grandes cantores que não interpretam suas próprias canções, como João Gilberto, Cauby Peixoto e Emilio Santiago.

Outros cantores maravilhosos, como Roberto Carlos, Milton Nascimento e Djavan, além de soberbos intérpretes, são excelentes compositores, ou vice versa. Já Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Gilberto Gil fizeram outro caminho, se consagraram como compositores e se tornaram impecáveis intérpretes, não só de suas obras. É nesse time de craques que Zé Renato conquistou sua vaga, com sua voz doce e seu estilo discreto e elegante de interpretar um repertório de alto nível.

Compositor respeitado e cantor amadurecido na dura disciplina dos conjuntos vocais, em décadas de Boca Livre, já como solista, Zé Renato havia reinterpretado a obra de Silvio Caldas, de Zé Kéti e de Chico Buarque em discos notáveis, com prêmios e criticas consagradoras. Agora ele oferece a mais bonita, elegante e sofisticada releitura da Jovem Guarda já feita até hoje. E a mais surpreendente.

“É Tempo de Amar”

por Hugo Sukman

Criado em berço de ouro musical, Zé Renato nem ouviria, pelo menos em tese, as canções românticas da Jovem Guarda. Quiçá tivesse vontade de cantá-las. Mente, coração, ouvido abertos, contudo, é isso que ele faz em “É tempo de amar”, seu novo CD pelo selo MP,B, com distribuição da Universal Music, no qual recria velhos sucessos da JG à sua maneira, ou seja, com harmonizações mais sofisticadas, tratamento instrumental mais moderno, inserindo aquelas baladas e rocks na melhor tradição evolutiva da música brasileira.

Mas afilhado de Silvio Caldas, filho da bossa nova, lançado por Edu Lobo, tendo com ídolo maior Milton Nascimento, membro fundador de um dos mais sofisticados grupos vocais do país (o Boca Livre), voz pura como água (apud Hermínio Bello de Carvalho), violonista limpo e de harmonias inusitadas, compositor de melodias lindas e complexas, artista moderno, o que Zé Renato teria com as canções simples e nostálgicas da Jovem Guarda?

“Meu primeiro violão, presente de meu pai aos 14 anos, era assinado por Sílvio Caldas, muito amigo dele. Mas a primeira música que eu aprendi foi ´Namoradinha de um amigo meu´. E olha que não era fácil, era em tom menor, tinha uma harmonia interessante...”, explica Zé Renato o início da sua relação com a Jovem Guarda. “O fato é que eu sempre, desde garoto, ouvia aquelas canções e, embora não fossem da minha praia, me interessava pelas letras diretas, simples, e pela beleza de muitas das melodias. Volta e meia eu imaginava aquelas canções tocadas à minha maneira”.